Casa de Preto Também é Academia: Samba-enredo, Mulher Negra e Produção de Conhecimento
Escrevivência, ancestralidade e comunicação popular nos sambas-enredo de 2026
Resumo
Este artigo analisa como dois sambas-enredo anunciados para o Carnaval de 2026 constroem a mulher negra como sujeito de conhecimento, memória e ancestralidade: Ponciá Evaristo, Flor do Mulungu, do Império Serrano, e Gèlèdés – Agbara Obinrin, da Mocidade Unida da Mooca. Parte-se do entendimento de que o samba-enredo ultrapassa a função musical do desfile e constitui prática comunicacional por meio da qual conhecimentos, identidades e projetos coletivos de existência são produzidos e compartilhados. O objetivo é compreender como as composições mobilizam a escrevivência — conceito desenvolvido por Conceição Evaristo que articula escrita, experiência vivida e memória coletiva —, a ancestralidade e a comunicação popular para produzir e legitimar epistemologias negras. A pesquisa é qualitativa, bibliográfica, documental e interpretativa, fundamentada na análise cultural e discursiva das letras. O corpus foi selecionado pela convergência temática entre obras que apresentam mulheres negras, divindades femininas, personagens literárias e tradições afro-brasileiras como sujeitos de memória e conhecimento. A análise articula comunicação popular, Estudos Culturais, semiótica da cultura e pensamento feminista negro.